Sinto-me a regredir, é como se toda a muralha, que cuidadosamente construí ao longo deste ano, estivesse a desmoronar aos poucos e poucos, dia após dia, levando consigo um pedaço de alegria e felicidade para um lugar longínquo do meu ser. 'O que se passa?'; 'O que está a acontecer comigo agora?'; 'E porquê?'... Eu grito bem alto tentando penetrar o silêncio imaculado que se encontra à minha volta, grito com todas as forças que o silêncio ainda não me retirou... A frustração vai invadindo o meu ser e a minha mente. Eu quero respostas! Eu preciso de respostas!! Mas a única resposta que obtenho é um silêncio ainda mais profundo, ainda mais sinistro.
Farto-me do silêncio avassalador, farto-me de mim. Decido pegar no meu par de ténis de corrida, no telemóvel e nos fones e vou correr. Não é correr para esquecer, tinha a sua piada se resultasse mas não resulta, por isso, vou correr numa tentativa de preencher algo. Como se as dores musculares e a escassez de ar nos meus pulmões fossem capazes de preencher algo mais em mim continuo em frente, continuo a correr com a força que sei nunca ter possuído. Começa uma nova música. Obrigo-me a correr mais e mais depressa, 'Só até a música voltar a mudar', penso. A música acaba, mas é tudo demasiado, não posso parar agora, por muito que sinta cada célula a ceder o meu cérebro ainda não está exausto, preciso de mais uma música (pelo menos mais uma) para preencher o que falta. O tempo continua a passar, mas de forma bem diferente, a música enche-me os ouvidos e distrai-me do cansaço que o meu corpo acusa. Acabou. Sento-me exausta na areia fria, desligo a música e fico a olhar para o horizonte durante o que parecem horas.
Eventualmente levantei-me e voltei para casa numa corrida leve e refrescante. Passaram 4 horas desde que despertei esta manhã, não pareceu tanto tempo assim confesso. Encontro-me de novo no mais profundo silêncio do meu quarto, desta vez estou a escrever uns gatafunhos numa folha de papel. É algo sobre o que sinto, mas é demasiado confuso. Ocupei quase uma folha inteira a falar do facto de ter ido correr. Que absurdo! Como se alguém fosse perceber o que se passa na alma deste ser lendo sobre "Hoje fui correr para fugir ao silêncio"... Ignoro. Não preciso que compreendam o que me parece incompreensível. Ainda se escrevesse para alguém... Deixem-me dessas balelas, porque as pessoas são só pessoas, pessoas que olham para si e esquecem os outros, pessoas que só tentam fazer com que o seu mundo continue perfeito, não valia a pena escrever para tais pessoas. Agora que penso sobre o assunto, acho que escrevo os textos para mim mesma, mesmo aqueles textos em que de alguma forma refiro "O texto é para ti, sim tu criatura do mal que me fizeste qualquer coisa". No fundo sei que esse texto é apenas para a pequena pessoa que essa pessoa é dentro de mim.
Voltando ao que é interessante... Correr, escrever para pessoas que existem dentro da minha pessoa... Falta o quê? Ah, talvez (mas só talvez), começar a dizer algo concreto sobre o que sinto. Centro-me no meu ser e tento perceber-me. Há algo de errado comigo, mais do que errado e mais do que o normal. Há realmente algo que me está a destruir por dentro, que está a fazer com que a minha muralha seja vista como um monte de cartas cautelosamente colocadas umas ao lado das outras mas que com uma pequena brisa caiem em efeito dominó. Não estou a achar piada rigorosamente nenhuma, é como se estivessem a fazer pouco de mim e do meu trabalho em manter tudo afastado do meu ser. Alguém ou algo está a forçar a barreira que impus ao mundo e está a conseguir. Memórias? Será que sim? Conheço-me demasiado bem, não são memórias. É outra coisa. As memórias há muito que deixaram de destruir a muralha, claro que elas existem e claro que ainda fazem abanar qualquer coisa no meu ser, mas isto é muito mais forte. Não quero que entre seja que for. Desaparece! Nenhuma célula quer descobrir o que está a conseguir ultrapassar as minhas defesas porque não é suposto nada conseguir interferir desta maneira.
Páro, acalmo-me, porque sei que irritada não consigo chegar a nenhum lado, olho em torno de mim, da minha vida e do que faço dela. Toda eu sou uma espiral que não sai do mesmo sítio. Toda eu e todo este texto, bem como a situação em si. É como se estivesse a vivenciar uma outra realidade. Uma realidade à parte da vossa realidade, uma realidade que não me deixa escapar e avançar e ser real. É tudo demasiado irreal, demasiado complexo, demasiado confuso, demasiado... É tudo demasiado! Não aguento este demasiado... Vou desistir da minha demasia e contentar-me (ou fingir que me contento) com a superficialidade da vossa realidade, uma realidade onde o copo meio cheio (ou meio vazio) basta. A vida por metades serve-me, por enquanto. Tem que servir! Tem que servir porque não tenho forças para impedir esta demasia em mim, porque eu penso demais, porque sinto demais, porque mostro demais, porque eu sou demais até para mim mesma. Eu simplesmente já não me suporto!! Porque por mais que eu tente há sempre aquela voz irritante na minha cabeça a pedir mais e mais e mais, a dizer que eu sou cada vez demenos, que nem a um copo meio cheio chego e eu já não suporto.
Vou correr para fugir ao silêncio, vou correr para fugir de mim, na esperança que encontre alguém que me queira por metades porque não sou capaz de ser por inteiro novamente, porque os pedaços de mim estão demasiado dispersos pelo chão e são demasiado aguçados para eu me atrever a andar no meio deles descalça. Vou correr para fugir, espero que percebas e não me persigas adorável "ser" que está a entrar no meu ser.
MC
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