quarta-feira, 13 de julho de 2016

Criatura mítica

    Não me reconheço. Não faço ideia de quem é esta criatura em que me tornei. Nunca sonhei sequer em pensar que poderia tornar-me nisto. Quanto tempo se passou desde que me tornei nisto? Sinto-me completamente envergonhada no que sou hoje em dia, uma enorme parte de mim tornou-se em algo que sempre desprezei. Ironia da vida? Diria que é bem mais que isso. É uma punição por me ter esquecido de mim por tanto tempo. Tudo isto é uma ENORME consequência daquilo que fui e não fui durante muitos anos. Sempre me privei de tanto por achar que era o errado e por ter medo do que toda a gente pensaria que aquando de me encontrar num novo lugar, lugar esse com alguma distância de qualquer controlo, esqueci simplesmente tudo o que sempre fui... A falta de controlo, de qualquer tipo de controlo, deixa-me ansiosa e faz-me tomar todas as decisões erradas, pelo menos é assim que sinto o que tem acontecido neste ultimo ano em que me encontro fora de casa. Não foi um ano fácil, viver longe de tudo o que conhecia tornou-se um desafio gigante, não vou mentir, foram muitos os dias em que preferi passar o dia entre os lençóis com o computador no colo e os fones nos ouvidos em vez de me arranjar e ir aqueles cinco minutos a pé para a faculdade onde teria que interagir com a minha nova realidade. Não me orgulho mas não me arrependo, talvez tenham sido demais os dias que tirei só para mim e para as minhas reflexões ou talvez tenham sido demenos e talvez por isso me tenho perdido mais do que me tenho encontrado. Ou talvez eu seja um universo demasiado grande e complexo para algum dia realmente me encontrar, se essa for a minha realidade estarei preparada para o aceitar? Ou passarei a minha eternidade a procurar-me e me isole de toda a realidade?
Nunca me imaginei a fazer as coisas que hoje em dia faço numa tentativa de calar por uns meros segundos a voz dele em mim. Nada do que o cala em mim é saudável, eu sei disso, sei que tudo o que faço para o calar me destrói fisicamente mas preciso demasiado de paz e de silêncio para querer realmente importar-me sobre o quão errado é fazer o que tenho feito. É disso que tenho vergonha, daquilo que tenho feito para o manter afastado da minha mente por uns meros segundos, porque sinto e sei que o que apenas faço é fugir e esconder-me do vosso mundo. Não me reconheço... Será que sempre fui esta criatura que se esconde do que não se pode esconder tudo porque tem medo (oh demasiado medo) de enfrentar a realidade que a rodeia? Ou será que o medo que tenho é de me enfrentar? E todas as minhas decisões que me têm vindo a destruir sejam devido a eu estar a aceitar a realidade mas a fugir de mim e, por isso, quero tão desesperadamente acabar comigo... Não sei, Não consigo saber, estou demasiado perdida, estou demasiado obcecada em esconder a minha humanidade do mundo para saber. Mal consigo distinguir o que é real e o que apenas faz parte do eu mundo, sinto tudo e nada ao mesmo tempo e é tudo demasiado. Não consigo afirmar se tudo isto não passa de uma fase da minha existência ou se eu realmente me resumo a isto. Se tudo o que sou é este caos que respira mas não sabe bem se está a respirar ou se é algo ou alguém que o está a fazer enquanto este apenas observa. Se eu for este caos continuas assim tão completamente apaixonado por mim? Assim como estás agora, sim eu sei que me vais dizer que me esqueceste assim como se esquece aquelas coisas chatas que se dá na faculdade, mas ambos sabemos que isso não é verdade. Uma parte de mim continua a habitar o teu ser enquanto tu te recusas a aceitar a realidade. Ou então nada disto é verdade e sou eu que me recuso a aceitar que sou assim tão fácil de deixar partir, que a minha pessoa é só uma pessoa e que tal como tantas outras que cruzaram a tua vida eu apenas sou um passado cada vez mais longínquo.
Tudo me tem passado ao lado, não sinto nada e nada mais me solta ou me distrai da tua imagem constantemente na minha cabeça, da tua voz teimosa e alegre que habita em mim. Sinto-te tanto em mim quando estou sozinha. Adoro estar sozinha, não sei ao certo porquê, sempre pensei que fosse porque adoro perder-me dentro de mim enquanto o mundo continua a girar sobre si e em torno do Sol. No entanto, talvez seja porque adoro sentir-te mesmo que estejas a kilometros de mim, mesmo que estejas noutro universo impossível de atingir do local onde me encontro. Talvez porque sentir-te assim é sentir-me a mim, é chegar à minha verdadeira essência ou talvez eu esteja tão apaixonada por ti que procuro justificações minimamente plausíveis para o ridículo que é ter-me entregue assim a ti. Tudo são teorias e nada é concreto. É tudo uma espiral sem fim de pensamentos e perguntas sem resposta e teorias que tentam explicar tudo e acabam por explicar nada. Os últimos meses não são mais do que meros "talvez" a aparecerem e desaparecem dos meus pensamentos e não sei ao certo o que ando a desprezar para me dar ao luxo de te ter numa realidade paralela mas não me pareço importar com isso. Se tivesses no meu lugar importar-te-ias?


MC

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